Por Rodrigo Mioni
Diretor de Consultoria AEC | NTI Brasil
Durante décadas, a engenharia aprendeu a resolver problemas durante a execução. Na indústria, isso significava descobrir um defeito depois que o molde já estava fabricado. Na construção civil, significava encontrar incompatibilidades quando a estrutura já estava concretada ou a obra em andamento.
Sempre fizemos isso. Talvez por muito tempo tenhamos acreditado que fazia parte do processo.
Até percebermos que existia uma alternativa muito mais inteligente.
O simulador sempre foi mais barato que o erro
Nenhum piloto aprende a voar durante uma pane real. Ele aprende no simulador. Na medicina, profissionais treinam procedimentos complexos antes de realizá-los em pacientes. Na Fórmula 1, equipes simulam milhares de voltas antes de um carro entrar na pista.
Então por que ainda aceitamos descobrir problemas apenas quando uma obra já começou?
Recentemente, durante uma conversa sobre o Autodesk Moldflow com o Thiago Guerra, percebi algo interessante, pois embora seja uma solução voltada à manufatura, sua lógica é praticamente a mesma que utilizamos quando falamos de engenharia no mercado de AEC. Antes de fabricar um molde que pode representar um investimento significativo, o Moldflow permite responder perguntas fundamentais: O material preencherá corretamente toda a cavidade? Haverá problema na solda? A peça poderá empenar?
Nenhuma dessas perguntas é feita depois da fabricação. Todas são respondidas antes.
Naquele momento ficou evidente que o Moldflow não está simulando plástico. Ele está simulando decisões.
E talvez seja exatamente isso que fazemos quando aplicamos o BIM.
O BIM nunca foi sobre modelos 3D
Existe uma percepção muito comum de que BIM significa apenas modelar projetos em três dimensões. Na prática, isso representa apenas uma pequena parte da história. O verdadeiro valor do BIM está em permitir que decisões sejam tomadas quando ainda existe liberdade para mudar.
É descobrir que duas disciplinas entrarão em conflito antes da obra. É entender o impacto financeiro de uma alteração de projeto antes da contratação.
No fundo, o modelo digital não existe para representar um empreendimento. Ele existe para reduzir incertezas - e esse conceito não pertence apenas à Construção Civil.
Quanto mais observamos as diferentes soluções tecnológicas, mais evidente esse padrão se torna. Exemplos:
No Inventor, simulamos o funcionamento de máquinas e equipamentos antes da fabricação, reduzindo drasticamente o retrabalho. No Civil 3D, avaliamos alternativas de traçado e movimentação de terra antes da execução, economizando milhões em operação de máquinas.
No Revit, coordenamos disciplinas que antes só se encontravam dentro da obra.
No Moldflow, simulamos o comportamento de um material antes que a primeira peça seja produzida.
São soluções diferentes. Mercados diferentes. Mas todas seguem exatamente o mesmo princípio: substituir decisões baseadas em tentativa e erro por decisões baseadas em dados e simulações.
O próximo salto já começou
Se a primeira revolução foi criar modelos digitais, a próxima será permitir que esses modelos passem a sugerir soluções. Estamos entrando em uma fase em que Inteligência Artificial, automação e dados começam a trabalhar juntos.
Imagine um ambiente capaz de indicar automaticamente conflitos de projeto, sugerir alternativas de engenharia, otimizar quantitativos e recomendar melhorias antes mesmo da revisão técnica da equipe.
Isso deixa de ser apenas um conceito. Já começa a fazer parte da realidade de diferentes segmentos da engenharia. Os profissionais deixarão de utilizar a tecnologia apenas para produzir documentos. Passarão a utilizá-la para tomar decisões melhores.
Essa é justamente a conversa que temos procurado provocar na NTI Brasil. Ao invés de perguntar apenas "qual software uma empresa deseja adquirir?", preferimos fazer outra pergunta: Qual decisão ainda está sendo tomada tarde demais?
Dependendo da resposta, a solução pode envolver BIM, manufatura, automação, infraestrutura, gestão documental ou integração entre plataformas. O software passa a ser consequência. O objetivo continua sendo o mesmo: reduzir riscos, aumentar previsibilidade e tomar decisões melhores.
A engenharia mais eficiente não é aquela que corrige problemas com rapidez. É aquela que consegue prever esses problemas antes que eles existam. Talvez seja justamente essa a maior lição que um "molde plástico" pode ensinar à Construção Civil.
Talvez sua empresa não precise de mais tecnologia.
Talvez precise tomar decisões antes.